Antonio Carlos Egypto

5 X FAVELA – AGORA POR NÓS MESMOS.  Brasil, 2010.  Direção: Cadu Barcelos, Luciana Bezerra, Luciano Vidigal, Manaíra Carneiro e Wagner Novais, Rodrigo Felha e Cacau Amaral.  Com Vítor Carvalho, Márcio Vítor, Pablo Vinícius, Juan Paiva e outros.  96 min.

“5 vezes Favela – Agora por nós mesmos”, como o próprio nome já indica, é uma coleção de curtas, contando histórias de personagens que vivem em favelas – do Rio de Janeiro, no caso.  Como todo filme de episódios, acaba sendo irregular, uma história é melhor do que outra, uma é melhor dirigida ou tem melhores interpretações do que outra e assim por diante.  Inevitável isso.

O que “5 X Favela” tem de mais interessante é o seu complemento: “agora por nós mesmos”.  Ou seja, ele retoma a experiência histórica do original famoso de 1962, porém, com um novo olhar, o dos moradores das comunidades.

As histórias foram criadas, dirigidas e interpretadas por eles, com a participação de alguns atores profissionais, num projeto concebido por Cacá Diegues.  Aqui se revelam o jeito de ver, sentir e existir dos moradores das favelas.  Suas dificuldades, seus relacionamentos, seu humor, seus dramas.  Algumas coisas surpreendem, apesar do muito que já se abordou o universo das favelas no cinema brasileiro, especialmente na última década.

A violência está presente, claro, mas não dá o tom do filme.  Só um dos episódios traz a violência dos confrontos armados que inviabilizam uma vida digna e em paz.  Esse episódio, “Concerto de Violino”, reforça o que estamos cansados de ver em filmes feitos por quem está de fora da favela e também no cotidiano dos telejornais.  Mostra também vínculos entre a polícia e facções criminosas.  Aqui, como nos outros curtas, fica evidente a dificuldade de se separar de alguma transgressão ou ilegalidade.

O que os outros episódios mostram é que há muitas outras situações – que não envolvem armas –, em que as escolhas são difíceis.  Por exemplo, adianta passar no vestibular da universidade pública se falta grana para livros e até para a condução?  E como obter esse dinheiro sem praticar nenhuma transgressão à lei?

As agruras de um menino que quer poder oferecer um frango no aniversário do pai, que só consegue comer arroz e feijão todo dia, também passam por fazer algo que não seria moralmente aceitável.

E diante da pouca atenção dos serviços públicos e da insensiblidade de um profissional, quando na véspera do Natal falta luz na favela?  Como resolver isso sem apelar, nem para a violência, nem para a ilegalidade?  O jeitinho temperado com humor acaba aparecendo.

Por mais que os conceitos éticos estejam bem internalizados na mente das pessoas, a carência absoluta cria situações que desafiam as possibilidades de se seguir o caminho do direito e da legalidade, durante todo o tempo.  Quando se vive no limite da subsistência e sem direito mesmo ao sonho, a linha que separa moralmente o que se pode ou  não fazer é muito tênue.  O desafio está em toda parte.  É isso que o filme nos mostra, por meio de suas histórias, bem diferentes uma da outra, mas que se aproximam por essa questão básica: o dilema moral.

A solidariedade é uma característica que costuma ser muito atribuída aos mais pobres, que dividem até o que não têm.  “5 X Favela” não nega isso, mas mostra também as hostilidades, as divisões e, consequentemente, os preconceitos que também existem entre grupos e comunidades.  A história do menino que cruza a ponte e vai em busca de uma pipa do outro lado revela o clima latente de violência e intolerância, ao mesmo tempo em que afirma a possibilidade do entendimento por meio do amor, a la Romeu e Julieta.  É o episódio mais interessante do filme, porque é o que consegue com maior eficiência mostrar o clima de tensão que se estabelece, dispensando a ação.  A sutileza é muito mais cinematográfica do que a pancadaria e até o amor pode se revelar em pequenos gestos.