Antonio Carlos Egypto

15 ANOS E MEIO (15 Ans e Demi).  França, 2008.  Direção: François Desagnat e Thomas Sorriaux.  Com Daniel Auteil, Juliette Lamboley, François Damiens, Julie Ferrier.  97 min.

Um cientista de reconhecido talento na sua área de atividades ou, mais do que isso, famoso e reverenciado por seus pares, se afasta da família, em função de pesquisas no exterior, por cerca de dez anos.

Se a relação conjugal já não se sustenta, resta uma filha desse casamento.  Ele deixou de conviver com ela, quando ela tinha entre 5 e 6 anos de idade, e determinadas circunstâncias do momento vão fazê-lo retomar a função de pai, quando a filha terá os 15 anos e meio do título da película.  Essa volta é bastante forçada na trama do filme, mas o mote da história é, inegavelmente, muito bom.

Se já é difícil ser pai de uma adolescente acompanhando seu crescimento e desenvolvimento, que dirá se essa responsabilidade se colocar abruptamente?  Quem é essa menina agora, o que faz, do que gosta?  Como conversar e se relacionar com ela?  E mais: cuidar dela, educá-la.  Certamente muitas confusões podem ser esperadas dessa situação.

A escolha da comédia para retratar tal desafio também parece adequada.  Afinal, por meio do humor, de situações engraçadas e inusitadas, pode-se perceber como seria possível lidar de maneira mais adequada com o que se apresenta nessa relação pai e filha.  Colocar a mãe fora de cena ajuda a ressaltar os problemas e dificuldades.  Portanto, até aí, tudo bem.

O que não funciona é que tudo é apresentado de forma caricata.  Possível, mas improvável do modo que é apresentado.  Não que não haja algumas boas ideias e alguns toques interessantes para os pais despreparados para “entender” as adolescências da atualidade (assim, no plural, mesmo).

Um cientista prima pelo rigor e racionalidade no seu trabalho, mas nem por isso ele precisa ser um sujeito emocionalmente ignorante e totalmente despreparado para os relacionamentos humanos. E, muito menos, ser um trapalhão, sem noção do que faz.

O espírito crítico do personagem do cientista parece ter tirado férias e sua capacidade de lidar com gente chegou ao ponto zero.  Não só com a filha adolescente, mas com seus colegas de menor status, sua “cobaia”, uma mulher que o admira e lança todas as dicas de que deseja algo mais com ele.  Ele nada enxerga e simplesmente não sabe como agir.  A ponto de precisar da ajuda de um amigo, que faz workshops de autoajuda, que beiram o ridículo total.  Aí, já é demais. O filme vai ”tirar sarro” da autoajuda.  Mas, com isso, desqualifica ainda mais o personagem do cientista.  Ninguém erra tanto, e tão grosseiramente, na vida real.  Ainda que muitas das situações e conflitos apresentados façam muito sentido.

A caricatura, o exagero, o estereótipo, inviabilizam a reflexão.  De clichê em clichê, o mote proposto e as ideias interessantes que ele contém se perdem num todo, que se torna raso.  E que, nem por isso, produz boas risadas.  Afinal, se o humor não consegue ser inteligente, acaba não tendo mesmo muita graça.  Até no exagero é preciso haver sutileza.  E isso, infelizmente, falta ao filme.